Três indicações e uma fuga

Essa semana de ressaca pós-pós-Emmy eu faço três indicações e uma contraindicação, esta última ao melhor estilo “fuja!”.

A primeira indicação é a grande vencedora do prêmio da televisão americana, The Handmaid’s Tale. Já falei brevemente sobre ela anteriormente e reitero que é a melhor coisa lançada na temporada 2016/2017. Apoiada na interpretação precisa de Elizabeth Moss (a Peggy de Madmen) e em suas várias coadjuvantes de peso – incluindo aí as vencedoras do Emmy, Ann Dowd (The Leftovers) e Alexis Bledel (Gilmore Girls) e a indicada Samira Wiley (Orange is the New Black) – a série ainda conta com a direção precisa e preciosa de Reed Morano em vários episódios e a mão firme de seu criador, Bruce Miller, no roteiro. Baseado no romance dos anos 80 de Margaret Atwood a série mostra um futuro breve e distópico, em que a raça humana parou de procriar e a misoginia e o fanatismo religioso aumentou e mostrou suas garras nos EUA. As mulheres só servem para esposas, criadas, ou como procriadoras forçadas que sofrem repetidos estupros nas casas em que vivem, com o fim religioso da multiplicação. Falar mais do que isso seria spoiler. E como a série ainda não está disponível no Brasil, por ter sido lançada no serviço de streaming Hulu que não existe ainda no país, guardo considerações para um futuro próximo. Por enquanto o bom conselho, se possível for, assista!

A segunda indicação é outra série. BoJack Horseman estreou sua quarta temporada há pouco tempo na Netflix, mas já é um clássico absoluto. Um desenho animado para adultos, um tipo de humor cheio de escárnio e auto comiseração, numa narrativa que fala sobre inadequação, insatisfação e depressão. Em BoJack a melancolia não tem fim. O alívio cômico é de partir o coração, mas as piadas com a própria indústria cinematográfica são ponto alto, incluindo aí participações dos próprios atores e atrizes famosos, dublando a eles mesmos e fazendo piada com seus status de ídolos hollywoodianos.

Em linhas gerais a série é isso: O cavalo BoJack Horseman foi uma grande estrela de sucesso nos anos 80, com a sitcom Horsin’Around, e vive uma vida de luxos em Hollywoo (não tem a letra D mesmo, isso é explicado na primeira temporada). Mas vive insatisfeito, bebendo, usando drogas e sem conseguir reproduzir o sucesso de outrora, em parte porque ele sabota qualquer coisa boa que aconteça em sua vida. Os personagens secundários, que vão ganhando mais profundidade conforme a série evolui (profundidade que chega ao seu ápice nessa quarta temporada que é a melhor de todas até aqui, seguindo uma terceira irrepreensível), representam uma série de arquétipos do entretenimento: a agente, a outra estrela, a ghost writter, e assim por diante. Mas se na primeira temporada a maioria desses personagens aparece quase como uma crítica ao clichê, da segunda em diante BoJack Horseman se humaniza mais através desses outros personagens, seja na bondade inerente de Mr. Peanutbutter ou na sagacidade de Princess Carolyn. Porque o cavalo protagonista, apesar de ser o mais humano dos animais, parece incapaz de humanizar-se; no melhor dos sentidos da expressão. BoJack chega no limiar, mas sempre estraga tudo, sempre. Mas o fundo do poço inatingível intercalado com momentos singelos de ternura e afeto fazem com que essa indicação esteja quase tão no topo quanto The Handmaid’s Tale.

A terceira indicação é o disco novo da Lorde, Melodrama. Ouça. Esse álbum estará em várias listas de melhores do ano. E a canção Writer in the Dark é primorosa, na minha lista de melhores canções de 2017. Lorde está cantando como nunca. E o disco é uma mistura e apropriação de várias décadas e, por isso, gêneros musicais. Lindamente produzido por Jack Antonoff, Melodrama nos mostra Lorde como uma artista mais madura, pronta para se arriscar mais.

E o momento “fuja correndo” vai para a série Friends from College, da Netflix. Não se dê ao trabalho. Não vale a pena. Vendida como uma espécie da How I Met Your Mother mais adulta e sombria, a série não consegue emplacar uma piada que seja, além de trazer personagens tão clichês quanto a sua premissa. O elenco se esforça, mas é impossível tirar leite de pedra. Escolha outra coisa e não passe pelo martírio que é essa série.

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