Trevas nunca mais

No final de novembro passei alguns dias em São Paulo, na casa de minha filha Mayara. Entre algumas atrações artístico-culturais, como o Projeto Notas Contemporâneas, no Museu da Imagem e do Som – MIS, com m João Bosco, a peça de teatro Selvageria, de Felipe Hirsch, no Teatro do SESC da Vila Madalena e o Tributo a Thelonious Monk, no Festival de Jazz de São Paulo, também garimpei velhos discos de vinil em lojas especializadas nas antigas bolachas.
Já havia ido na Erik Discos, em Pinheiros e em uma tarde de sábado, fui na Discomania, que fica bem no começo da Augusta. Como lá já fui algumas vezes, fiz amizade com o gerente da loja, um gaúcho simpático e cordial que me auxilia em minhas buscas. Lá chegando não encontrei Paulo, o gerente. Em seu lugar havia outro homem, falante, mas menos atencioso. Como não consigo encontrar praticamente nada, devido a minha deficiência visual, fui obrigado a pedir auxílio ao tal homem, que logo vim a saber, era o dono das lojas, há mais uma, subindo a Augusta, no sentido da Paulista. Não sei exatamente porque entramos na política partidária e na sucessão presidencial. Acho que foi porque comentei que tenho encontrado alguns discos em uma loja em San Fracisco e que minha filha os traz de lá. Ele perguntou se ela morava na Califórnia ao que respondi que não, mas que está inscrita em alguns programas de mestrado, entre os quais em Berkley e UCLA, ambos na Califórnia. Aí ele disse que se ela for admitida, não deve voltar mais, pois o Brasil não tem jeito, só havendo uma saída, a vitória de Bolsonaro. Respirei fundo e pensei, estou diante de mais um fascista, mas não vou me calar. Disse a ele que em Bolsonaro não voto em hipótese alguma, que não posso contribuir com a escalada de um misógino, homofóbico, defensor da ditadura militar, da censura e da tortura. Concluí dizendo que além de tudo isso, Bolsonaro é um ignorante e que se eleito, restringirá as liberdades individuais e que voto em qualquer um contra ele. O sujeito ficou furioso e quis me dar uma aula de história, aprendida sob as distorcidas lentes da ultra direita, do fascismo ou do nazismo. Louvou o regime militar, dizendo que não houve ditadura, ao que lhe perguntei: e as cassações, os atos institucionais, a censura, a tortura e os assassinatos, foram o que? Um conto de fadas? Ele não arredou pé, disse que havia uma guerra e que Médici, o mais truculento dos presidentes militares, fora o melhor de todos, pois havia conseguido derrotar a Guerrilha do Araguaia. Eu insisti dizendo que Médici e Costa e Silva foram os piores e que Geisel foi o melhor, dando início a abertura democrática. O sujeito prosseguiu vociferando impropérios criticou Barak Obama, e louvou Donald Trump. Pus fim a discussão quando ele atacou Fernando Gabeira. Para mim uma das mais notáveis personalidades brasileiras, seja pela sua autenticidade, seja pela sua coerência e pela sua intransigente defesa do meio ambiente e dos direitos humanos.
Saí da loja rememorando duas de minhas mais recentes Crônicas, intituladas Tempos sóbrios I e II, pensando que de fato eles se aproximam, se nós deixarmos é claro.
Já de volta a União da Vitória, na quinta-feira, 7, estive na UNIGUAÇU, acompanhando a solenidade de assinatura do convênio firmado entre a Instituição Educacional e a Rádio Educadora, instituindo de agora em diante a Rádio Educadora –Uniguaçu.
Em seu pronunciamento, o diretor-presidente da Mantenedora UNIGUAÇU, Wilson Ramos, o Xixo, como é conhecido, teceu duras considerações sobre o momento que vivemos, comparando-o com os anos 30, época da eclosão do nazismo. Disse vivemos uma idade de trevas, com fascistas pregando o ódio e a intolerância e sinalizando dias cada vez mais sombrios.
Imediatamente lembrei, novamente, das minhas crônicas já aqui aludidas e vou chegando à conclusão que há mais luz no fim do túnel, do que eu imaginava. Há pessoas importantes, inteligentes e cultas como Xixo, levantando sua voz em público e condenando esse discurso fascistóide, em que vale e pode tudo, censura, supressão de direitos individuais e sabe-se lá o que mais, em nome da estabilidade econômica, em nome da família tradicional, apregoada por obtusos fundamentalistas religiosos. Como se uma família não pudesse ser constituída por um casal homo afetivo.
A hora é agora, vamos dar um basta a qualquer tipo de intolerância e deixar a Idade Média, apenas como uma triste lembrança.

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