Um alerta conveniente

Madeleine Albright possui uma experiência de vida extraordinária. Nascida em Praga, atual capital da República Tcheca, em 1937, foi obrigada a se mudar para a Inglaterra ainda menina, quando sua família se viu forçada a fugir das perseguições e assassinatos provocados pelo regime nazista após a invasão da então Tchecoslováquia, levada a efeito entre 1938 e 1939. Foi de lá que, entre brincadeiras e lições de escola, assistiu ao desenrolar do conflito mais sangrento da História, terminado apenas em 1945. Crente de que o pior já havia passado sua família resolveu retornar à terra natal, apenas para ter que fugir novamente das perseguições de outro regime totalitário, o comunismo stalinista que logo após a guerra se apossou do sistema político tcheco. Era o início do que se tornaria conhecido como Guerra Fria, e os pais de Madeleine optaram por se deslocar, desta vez, para os Estados Unidos, país que ela adotou como seu e de onde nunca mais se mudou. Mais do que adquirir cidadania estadunidense, Albright se formou na Universidade John Hopkins, uma das mais prestigiadas daquele país, e ocupou o cargo de Secretária de Estado durante o governo de Bill Clinton, entre os anos de 1997 e 2001. Uma trajetória sem dúvida interessante e cheia de percalços. Cheia, aliás, de enormes percalços. Afinal de contas, é difícil imaginar o que poderia ser mais difícil do que fugir de dois dos regimes políticos mais infames e violentos da história da humanidade – os liderados por ninguém menos que Hitler e por Stálin, que dispensam apresentações.

Será possível dizer que a vida desta respeitável senhora de 81 anos foi fácil? Seria ela capaz de considerar qualquer momento posterior e sua vida mais ameaçador e terrível do que os vividos durante sua infância e adolescência, em meio ao massacre de 60 milhões de seres humanos? Difícil de imaginar. E, no entanto, em seu livro recém lançado com o sugestivo título Fascism: a warning (Fascismo: um alerta, em tradução livre), Albright nos faz uma afirmação seríssima, exatamente porque vinda de uma pessoa com sua trajetória: “the things that are happening are genuinely, seriously bad” (“as coisas que estão acontecendo são genuinamente, seriamente ruins”, novamente em tradução livre). Esta mulher, contemporânea de dois dos maiores facínoras da história humana, está se referindo ao ressurgimento do fascismo em nossos dias. De dias nos quais partidos de extrema direita ganham força na Europa, nos quais uma pessoa do calibre de Donald Trump consegue se tornar o comandante do maior arsenal nuclear do mundo enquanto governa com frases estúpidas emitidas rotineiramente em seu Twitter pessoal. Não, Albright não está pensando no Brasil, embora o inclua em um alerta que tem alcance planetário, ciente que se mostra dos movimentos ocorridos em terras tupiniquins quando, lá pelas tantas, exprime sua preocupação com o “ressurgimento de movimentos militaristas de direita na América do Sul”. Para onde ela olha, tudo que consegue enxergar são ataques à democracia liberal, justamente aquela que garante a igualdade de todos perante a lei e a liberdade de cada um ter e defender suas ideias como bem entender. Poderia ser apenas um livro alarmista escrito para assustar, como outros tantos que vemos nas prateleiras. Mas, repito, este ganha uma dimensão peculiar quando analisamos a vida de sua autora. Eis o ponto que assusta.

O livro de Madeleine Albright apresenta um foco privilegiado, por razões compreensíveis, na política estadunidense e em seus desdobramentos em termos mundiais. Mas não deixa de oferecer contrapontos interessantes para pensarmos a política brasileira dos dias que correm. Albright, por exemplo, coloca a culpa dos ataques à democracia sobre os ombros de seus próprios defensores, quando defende que o problema dos tempos atuais reside no fato de que somos tão livres, tão inocentemente livres, muitos de nós tão versados nos princípios democráticos básicos que nos convencemos de que a democracia se sustentará por si só, de que nunca poderá ser destruída. O que constitui, obviamente, um erro de trágicas consequências. Ao mesmo tempo, faz uma análise histórica aguda quando defende que “cada era possui seus próprios fascismos”. E, finalmente, quando define fascismo não como uma ideologia, mas sim como um método, um sistema. Em que consistiria este método? Para responder a esta questão Albright recorre ao próprio Hitler, em uma de suas tentativas de explicar o próprio sucesso: “eu vou dizer a você o que me trouxe à posição na qual hoje me encontro. Nossos problemas políticos pareciam complicados. O povo alemão não podia fazer nada a respeito deles. Então eu os reduzi aos termos mais simples possíveis. As massas, então, perceberam isso e começaram a me seguir.” Alguma semelhança com o que assistimos no dito “debate” político brasileiro atual? Na profusão de slogans, frases e conceitos simplificados ao nível mais tosco possível tanto na direita quanto na esquerda, no centro, em todos os espectros políticos, enfim?

Madeleine Albright está preocupada sobretudo com seu país de adoção, os Estados Unidos. Mas seu alerta serve perfeitamente para nós, brasileiros. A simplificação é a arma definidora do método fascista. Como já escrevi várias vezes neste espaço, não existem soluções fáceis, messias salvadores, inimigos cuja eliminação levará consigo todos os problemas da nação. Tais afirmações são falsas. São artificiais. São um engodo. São ideias que se aproveitam de um ambiente de profunda ignorância dos princípios políticos e de convivência social mais básicos, e se alastram como vírus em um organismo desprotegido. Apenas a mudança e o esforço de cada um dos membros de uma sociedade pode levar à transformação da mesma sociedade. Nada virá de fora. Nunca. Acreditar que o mundo pode mudar sem que nossos hábitos e costumes se transformem primeiro é simplesmente absurdo, como absurdo é imaginar que nossos filhos terão uma boa conduta se não os levarmos a isso por nosso próprio exemplo. Em tempo de Bolsonaros, Lulas livres e outras bizarrices, qualquer alerta contra o ressurgimento do método fascista de simplificação da realidade parece extremamente apropriado. E ele veio de alguém que conviveu em um planeta dotado não de um, mas de dois demônios encarnados. Que conviveu não com um, mas com vários genocídios. Que assistiu não a alguns, mas a dezenas de milhões de assassinatos. Que aproveitemos suas palavras e acordemos enquanto é tempo. Porque a continuar a carruagem sendo levada para onde vai, é provável que muito em breve não tenhamos mais a oportunidade de sequer tomar nota de tais alertas. Até a próxima!

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