Um erro epistemológico da psicologia científica

A suposição de duas realidades distintas é bastante cara. A psicologia resolveu-se como ciência quando articulou esse tal mundo interno, mesmo Freud acabou por reforçar esta tese. Nós estaríamos, então, situados entre duas realidades: uma externa, o mundo, e outra interna, nosso campo inobservável ao outro. A primeira consequência disso é que ao outro é negado, ou atribuído elementos pertencentes ao sujeito. Assim, por exemplo, a teoria sexual infantil que diz ao menino que todos os seres possuem um falo, ou que, outro exemplo, cabelo comprido é equivalente de mulher (num período) é tomada como uma etapa do desenvolvimento a ser superada, e que haveria então uma crescente capacidade de discriminação, cujo resultado final seria o sonhado ideal da psicologia científica: enfim, a capacidade de separar o interno do externo. Isso é meu, e isso é seu. Sonho individualista. De tal modo que, a inseparabilidade aludida entre o sujeito e o outro não seja jamais superada, de todo. E isto se justifica pelo fato da linguagem. Só seria possível conceber uma separabilidade destas se houvesse dentro da linguagem – eis o erro – um fora da linguagem. A psicologia dita científica mira então num ideal, assim como a ciência em geral, de dominação da natureza: o modo de abordagem do real, o método, permitiria que dentre as operações psíquicas, aquelas que ocorreriam no interior do aparelho, estivessem submetidas à leis diversas daquelas que regem a própria natureza, visto que seriam realidades distintas. Afora o narcisismo aí declarado, ela cria o insolúvel problema de que estudar a realidade interna só é possível através de um método inacessível ao observador, portanto, dependendo de uma variável fundante: embora ela seja esvaziada do lado do observado (não se quer saber o que o rato pensa, apenas seu comportamento observável) esta variável reaparece necessariamente do outro lado, no observador. Nega-se que o rato pense, em seu lugar surge a realidade do pensamento do outro. Já não sabendo mais quem é o rato, só resta à psicologia científica declarar que o mundo interno é inacessível. Por outro lado, há outro impasse. Pode-se também desembaralhar a questão pelo outro viés: há duas realidades, a interna só é acessível pelo intermédio daquele que lá está. Assim a introspecção seria o método mais confiável, o sujeito relataria o que percebe em si a um terceiro que avaliaria através da descrição do primeiro o que se passa lá dentro dele. Só que ao relatar, nada garante que a informação já não seja falsificada pelo relator. E ademais, a percepção que ele tem de si impede que o dado observado já não o implique: não há uma percepção bruta de um dado bruto. Assim a realidade interna relatada a um observador externo seria inacessível ao próprio observador interno. Eis aonde nos leva a hipótese defendida pela psicologia de haver duas realidades. Num caso a operação sobre o comportamento observável nega a realidade interna, mas a restitui do lado do observador; de outro a confirma no sujeito, mas a nega pela inacessibilidade. Ora, ao seguir a tese de que o ideal da psicologia levaria a uma condição de discriminação verdadeira entre o interno e o externo, ela só poderá, no limite, levar o sujeito a uma condição ideal, a de cientista, isto é, a lugar nenhum. De outro lado, ao individualismo respaldado pelo interno, haverá sempre uma realidade última, cuja percepção pura não alcança. O preço disso é que, contrariamente à propaganda, a psicologia científica só pode levar o argumento ao absurdo: uma promessa de saber distinguir o que ela mesma nega existir, ou jamais abordar justamente o que constitui seu objeto. O problema só começa a se resolver quando a abordagem muda. A psicologia, e igualmente o método científico tradicional, confunde deliberadamente (isto não é perceptível imediatamente) duas categorias que são distintas. A do verdadeiro responde à lógica, onde as operações matematizáveis dotam a realidade de signos: a realidade é abordada pela via do experimento, isola-se um dado e se aplica a ele o controle de variáveis, de modo que este enquadre forneça um recorte do real. Depois, eis a magia da coisa, ela é restituída como natural (vide pesquisas neuropsicológicas). Mas note-se que o dado objetivo somente o é depois desse recorte, jamais antes. Campo do verdadeiro. Não menos verdadeiro, contudo, que do falso, pois o experimento pode confirmá-lo ou não. Não passa despercebido que o mundo externo se constitui tal como é pelo intermédio da leitura que se fez dele, para dar nome aos bois. Só que ao fazê-lo não houve uma segunda realidade, o que houve foi a emergência dela. Resta portanto, diversa dela, a categoria da existência, e é de fato, onde a coisa começa.

Psicólogo clínico,
especialista em Teoria
Psicanalítica e em Neuropsicologia. Atende em Caçador e União da
Vitória.
giuliano.metelski@gmail.com – WhatsApp: (49) 99825-4100 / (42) 99967-1557.

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