Um pouco da participação árabe em Porto União

Esta semana, abordando a língua árabe como constituidora da identidade de nossa sociedade, finalizo a sequência de textos que são minha singela homenagem à pluralidade linguística na formação do município de Porto União, pela comemoração de seu primeiro centenário completado este ano. Reconheço que outras variedades linguísticas que não foram abordadas nessa sequência de textos também deixaram sua contribuição, porém faltam-nos no momento as condições para uma pesquisa mais aprofundada.
Os primeiros imigrantes árabes chegaram a Santa Catarina no fim do Período Imperial(1871-1880), e em números expressivos perto das duas Guerras Mundiais. Instalaram-se no interior, como foi o caso de Porto União e União da Vitória, por estarem servidas pela ferrovia, que permitiu seu transporte a partir das zonas portuárias. Os motivos que os fizeram deixar a Síria e o Líbano, suas terras natais, foram a pobreza, a falta de oportunidade e a dominação turco-muçulmana sobre minorias cristãs (ESPINOLA, 2005, p. 73).
Como podemos perceber em nossas cidades, o comércio é a atividade principal e também identificadora desse grupo. Entre as principais dificuldades enfrentadas pelos imigrantes estava a questão da língua portuguesa, cujo domínio foi fundamental no momento de sua inserção em nossa sociedade. A prática da atividade comercial, porém, que exige o contato intenso com o público, facilitou-lhes a aquisição da nova língua. O uso da língua árabe manteve-se, pelo menos inicialmente, como motivo de orgulho, no espaço privado do âmbito familiar; mantém-se, também, o costume de dar nomes árabes aos filhos na comunidade. A língua árabe é conhecida como o idioma do livro sagrado dos muçulmanos e de suas cinco orações diárias, porém o Islã não pode ser visto como sinônimo de árabe, visto que nem todo árabe é islâmico e vice-versa. As famílias de imigrantes árabes de religião cristã são mais numerosas e chegaram antes ao Brasil.
O historiador porto-unionense Carlos Guérios, como eu, formado em Letras-Português e Inglês, viveu em Porto União da Vitória até 1977, e dedica-se desde os seus 16 anos à pesquisa sobre a imigração sírio-libanesa, possuindo um grande acervo sobre o tema.
Entre as diversas famílias de origem sírio-libanesa que merecem nosso reconhecimento por sua contribuição, estão Guérios, Domit e Yared; um exemplo que desejo mencionar mais detalhadamente, porém, é o da família Farah, que vejo como uma das que mais influencia(ra)m a história do município de Porto União. Miguel Farah, o patriarca tradicional que participou na guerra do contestado, foi o nome dado ao colégio de educação profissional que hoje se chama CEBREP. Tivemos um hospital na esquina das ruas Prudente de Morais e Matos Costa chamado Nazareth Farah, nome dado em homenagem à esposa de Miguel Farah e mãe de seus fundadores, entre eles Salime Farah, agraciada com o “Diploma de Mérito Ético-Profissional”; Salime é uma médica renomada que foi vereadora por três mandatos e a primeira e única mulher vice-prefeita de Porto União; seu irmão, Dr. Fauzi Farah, foi o agraciado há 12 anos. Dehni Farah Olinger, advogada, foi a primeira mulher cartorária em Porto União.
A maioria das nossas línguas de imigração foram faladas aqui pelos imigrantes e seus filhos, sendo que a partir da terceira geração os descendentes passaram a utilizar muito mais o português que a língua dos seus avós; é um processo que acontece naturalmente entre comunidades de imigrantes que se integram a um novo local. Há poucas décadas, no entanto, iniciou-se um movimento de valorização da aprendizagem de outras línguas, o que fez com que as línguas que antes apenas os imigrantes falavam passassem a ser ensinadas a toda a comunidade, juntamente com o inglês, cujo conhecimento é visto como uma necessidade cultural, econômica e acadêmica. Nossas cidades vêm oferecendo, em escolas e grupos especializados, cursos de línguas alemã, italiana, ucraniana, polonesa, entre outras. Chama-nos à atenção, porém, que não se disponibilizam cursos de língua árabe à população em geral, o que nos leva a considerar o caráter muito discreto dessa comunidade com relação aos seus costumes.
Todas as etnias aqui representadas fazem a história do município de Porto União e, obviamente, de sua cidade gêmea União da Vitória. As pessoas que se integraram à nossa sociedade e seus descendentes não se distinguem mais, hoje, uns dos outros, em muitos aspectos; casaram-se entre si, compartilha(ra)m experiências e costumes. A manutenção das línguas de imigração, portanto, não deve ser vista como uma tentativa de sustentação da divisão, marcando uma comunidade como afastada da outra; deve ser entendida como uma riqueza cultural, um acervo a ser mantido, e uma oportunidade de crescimento individual e coletivo.
Que Porto União seja grande e abençoada, nos seus muitos outros anos de vida futura, e continue congregando pessoas com marcas culturais distintas numa unidade baseada na escolha pela paz e pelo crescimento de todos.

REFERÊNCIA:
ESPINOLA, C. V. O véu que (des)cobre: etnografia da comunidade árabe muçulmana em Florianópolis. Tese de Doutorado. Florianópolis: UFSC, 2005.

2 Comments on Um pouco da participação árabe em Porto União

  1. Olá, gostaria de saber como faço para conhecer uma família?
    Minha avó morou em união da vitoria, com Celso Cordeiro, tinha uma rua com o nome dele.
    Só q a minha vo terre um relacionamento fora do casamento com um rapaz chamado Saad ( Não sei o sobrenome) , e desse relacionamento teve um filho ( meu pai) e ele nunca conheceu ninguém dessa familia, só descobriu que no era filho do pai de nom3 com 18 anos.
    Gostaria de saber se tem como ajudar.

    • Margarete Schwab A Sá // 16 de agosto de 2018 at 12:12 // Responder

      Bom dia!
      Por estas informações que você passou fica um tanto difícil ajudar, entretanto conhecemos uma pessoa de nome Celso Pinto Cordeiro, que talvez seja descendente deste Celso que você mencionou. Se você conseguir mais algumas informações será mais fácil ajudá-la. Qual o nome de sua avó e idade?

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