Uma ponte na História

No último dia 22 de novembro foram anunciados, em cerimônia solene realizada no Wooden Hall, a realização de numerosos investimentos em nossa região, entre eles os relativos à construção de uma ponte ligando o centro de União da Vitória ao distrito de São Cristóvão, em paralelo à atual ponte de ferro, histórica construção ferroviária datada da década de 1950. Moradores de cidades literalmente abraçadas pelo rio Iguaçu e atravessadas por seus numerosos afluentes, as quais de tempos em tempos precisam lidar com a teimosia de suas águas que insistem em subir não importa o que se faça para impedi-las, é impossível não nos referirmos ao tema “pontes” quando nos dispomos a debater o desenvolvimento urbano e a formação de nossas cidades.
De fato, o assunto é central para nossas cidades desde sua fundação. Na verdade, é possível afirmar que o início de sua ocupação mais vigorosa se liga diretamente a uma ponte, embora não dessas construídas pelo homem, mas sim uma formada pela natureza. Não é outra a definição que pode ser emprestada ao vau do Iguaçu, ponto privilegiado de passagem de caudalosas águas que, ao ser adotado por tropeiros e demais viajantes em meados do século XIX, ofereceu nova oportunidade de caminho àqueles que demandavam as províncias de São Paulo e Minas Gerais vindos das vacarias de São Pedro do Rio Grande do Sul. O vau representa, neste sentido, a primeira ponte literalmente presente na história de nossas cidades. Uma ponte sem dúvida de fundamental importância, pois que determina nossa residência nesta área geográfica. De um lado a outro do rio tornou-se possível transportar gado em pé e mercadorias em apenas alguns minutos, encurtando distâncias e oferecendo novas possibilidades de comércio. Iniciou-se a povoação. E em breve novas pontes tornaram-se necessárias.
A segunda delas, primeira feita pelo homem, foi construída em 1906, ainda em caráter provisório, com o objetivo de levar composições de ferro de um lado a outro do rio, possibilitando a mudança da primitiva estação ferroviária de Porto da União para o local onde ela hoje se encontra (no início duas, na verdade, só mais tarde tornada uma). Substituída por outra de ferro ainda nos anos 1910, e finalmente pela atual ao longo da década de 1950, a ponte de ferro durante décadas foi o único modo de atravessar o rio sem molhar os pés. Deixou de sê-lo em 1944, quando a belíssima ponte do Arco foi finalmente inaugurada, em um local realmente bastante estranho e afastado do centro inicial do povoamento. De fato, com a coluna de Marcelo Storck publicada no último dia 1º de dezembro entendi porque aquela ponte parecia tão deslocada desde o primeiro dia que visitei esta cidade, ainda durante meu concurso para ingresso no Instituto Federal. Ela sai de uma região relativamente pouco habitada e dá em um morro verdadeiramente íngreme, por esta mesma razão também quase completamente desocupado. Dali, após escolher qual veículo faria a travessia primeiro (dada a estreiteza da estrutura), é necessário escolher por qual direção irá ser feito o desvio do morro que, do modo como a ponte está planejada, parece simplesmente não dever estar ali. Como estamos falando de um acidente geográfico multimilenar e de uma ponte feita por mãos humanas, fácil é concluir quem está no lugar incorreto. Tudo fica ainda mais esquisito quando aprendemos que a região onde está o colégio Túlio de França, por exemplo, é originalmente um banhado… Do banhado ao morro, é a legenda que orna a fotografia da citada ponte. Nada parece mais correto. E assim a cidade foi levada a se desenvolver, durante outras décadas, em uma região dada aos rigores mais intensos das cheias periódicas do rio Iguaçu.
A terceira ponte urbana de nossa cidade surgiu apenas em 1986, como resposta à cheia de 1983. Neste caso o objetivo era oferecer um caminho alternativo de fuga das cheias, e isso explica sua localização privilegiada para cumprimento deste objetivo. Ficou para trás, contudo, o necessário reforço da ligação entre o núcleo populacional originário de nossas cidades e o distrito de São Cristóvão. Aquela original, garantida inicialmente pelo vau, confirmada pela ponte ferroviária (que se tornou rodoviária com a retirada dos trilhos em 2001). É esta lacuna que o atual projeto vem preencher. Não entro aqui no mérito político da questão (tema tão inócuo e sem graça no país em que vivemos hoje) mas tão somente em sua questão urbana. Era necessária essa construção. Se do modo como está sendo oferecida é outro debate (particularmente continuo vendo apenas uma faixa de rodagem no sentido centro – São Cristóvão, e não consigo deixar de pensar que segue sendo pouco), mas esta construção era necessária para a necessária integração dos bairros de nossa cidade.
Se é verdade que uma ponte provocará desenvolvimento, empregos, enriquecimento, melhoria absurda das condições de vida da população é uma questão polêmica que reputo ao necessário ardor dos discursos políticos e que caberá ao tempo responder. Mas esta era, sim, uma obra necessária. Como necessário se torna, também, o repensar da função da histórica ponte de ferro em nossas cidades, limitada que será daqui para frente em ciclovia e passarela de luxo para nossos concidadãos. Que tal, juntamente com o pavimento necessário para as bicicletas, recolocarmos os trilhos indevidamente retirados e trabalharmos, através de uma frutuosa parceria entre governo municipal, instituições de pesquisa e sociedade civil, em um grandioso projeto de turismo histórico ferroviário que muito agregaria em renda, empregos e, com isso, melhoria das condições de vida de nossa população? Uma linha a princípio modesta, entre São Cristóvão e a estação Engenheiro Melo, ainda preservada (por enquanto, pelo menos) seria um excelente começo, e já garantiria o atendimento de alguns dos principais pontos históricos de nossa cidade, abrindo consideráveis oportunidades de investimento. Em um segundo momento, o Quilômetro Treze com suas lindas paisagens precisaria ser contemplado também, garantindo a conjugação entre História e meio ambiente em um roteiro único no país, capaz de atrair turistas das mais diversas regiões. Oportunidade única aberta por esta nova construção necessária. E que, sem sombra de dúvidas, vale a pena analisar. Até a próxima!

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