Velhas canções que o tempo não apaga

Escuto música desde meus 8, 9 ou 10 anos. Dessa forma costumo perseguir algumas canções que eu ouvia há muitos anos atrás, às vezes por meses, às vezes por anos e às vezes até por décadas. Assim foi com a canção I’ll you be there with you, do cantor e compositor português Paulo de Carvalho, que acho que é de 1974, ou de 1975. Eu ouvi essa canção pela primeira vez na rádio Continental, de Porto Alegre, eu tinha uns 16 anos. Nessa época eu ouvia muita rádio, em especial a Continental, de Porto Alegre, a Mundial, do Rio de Janeiro, e, a Excelsior, de São Paulo, todas em AM, já que as FMs estavam circunscritas apenas às grandes cidades. Procurei esta canção na Internet, assim como tentei comprar o disco, sem, no entanto, nunca tê-lo encontrado. Há alguns dias encontrei-a no YouTube, onde já havia, em vão, procurado. Muitas vezes ao ouvir música sozinho em casa, imerso em pensamentos chego a conclusão de que ouvir música é quase sempre um prazer solitário, portanto, poucas vezes compartilhado.
As músicas ouvidas apenas no rádio eram de fato algo que se fazia em solidão e só podiam ser compartilhadas, quando eventualmente as conseguíamos gravar, ou encontrá-las em disco, o que nem sempre era tão fácil.
Eu costumava anotar o nome daquelas velhas canções, para procurá-las depois. Quando conseguia comprar os discos, aí sim compartilhava com meus amigos e amigas. Algumas das canções que eu busco há mais de 40 anos até hoje não encontrei. Uma delas, por exemplo, chama-se, I gotta believe, que não lembro mais quem a interpretava, daí a dificuldade extrema em encontrá-la ficando ela apenas em meu imaginário. Essa canção que menciono figurava em um disco de meu amigo Tito Schmidt com quem há muitos anos não tenho contato e dessa forma não encontrei mais o referido disco. Recentemente, encontrei uma loja de discos usados, em São Paulo. Nesta loja encontrei raridades, como o disco, Out the court of the Crimson King, de 1969, e que foi relançado em 1972, da seminal banda King Crimson, um disco dos anos 70 de Harold Melvin and the Blue Notes e também o primeiro Black Beat, que era uma compilação de canções da soul music que mais ou menos por volta de 73 fez muito sucesso nos Estados Unidos, principalmente, na Filadélfia denominando-se The sounds of Philadelphia- T.S.O.P. e de onde se espraiaria para o resto do mundo e atrairia inúmeros ouvintes entre os quais eu. Consegui comprar nesta referida loja, Eric Discos o Black Beat número um que eu já tinha, mas que estava em péssimo estado. Tenho também o Black Beat três, quatro e seis. Não consegui ainda achar o dois e o cinco, mas os procuro e creio que muito brevemente deverei encontrá-los. Também tenho encontrado algumas raridades aqui em União da Vitória na loja Porão Discos, de meu amigo Osmar Wolf. Muito recentemente encontrei o disco de 1973, Shoot out at the fantasy factory, da antológica banda Traffic, uma das primeiras a unir o rock com o jazz e que há muitos anos procurava, e, ele estava ali na prateleira como que a minha espera.
Tenho ótima memória para nomes de música, onde as ouvi pela primeira vez e também onde as encontrei em disco.
Uma dessas que procuro há décadas é Mudanças, do cantor e compositor gaúcho, Gil Gerson. Ouvi essa canção pela primeira vez na televisão em 1973, na fase classificatória do Festival Abertura, da TV Globo. Ouvi e gostei na hora, mas ela acabou não se classificando entre as 16 finalistas e, portanto, não figurou no disco que a Globo lançou logo após a divulgação do resultado final.
Assim eu a ouviria umas poucas vezes na Rádio Continental de Porto Alegre, naquele longínquo ano. Somente a ouviria novamente em 1979, quando fui programador da Rádio União. Lá encontrei um disco com as canções que não se classificaram para as finais. Toquei-a inúmeras vezes na programação da União, enquanto lá estive entre 79 e 80. Antes de sair da Rádio, gravei todas as canções que gostava e que não tinha em disco. Quando vendi meu gravador de rolo, um Akai 4000 DS, junto com ele se foram 70 fitas, cujo conteúdo variava entre 4 a 6 horas de gravação em cada uma delas; assim, lá se foi Mudanças e tantas outras que não tinha e que levei décadas para novamente garimpar. Enquanto escrevo essas linhas, lembrei de Mudanças e a procurei no You Tube, sem muita esperança de encontrá-la, porque já o havia feito e nada. Mas desta vez a coisa foi diferente, lá estava ela impávida, esperando por mim. Aí lembrei também de Vaila, de Ednardo e O tempo, de Reginaldo Bessa. Ambas foram concorrentes do mesmo Festival e estavam disponíveis no You Tube. O Abertura foi vencido pela canção Como um ladrão, de Carlinhos Vergueiro e que era minha preferida, enquanto Vaila, era minha segunda opção e a favorita de meu amigo Nivaldo Camargo, que infelizmente, não está mais aqui para compartilhar essas indeléveis lembranças.
Fica a triste constatação da bela canção de Reginaldo Bessa: …eu olho e até me assombro, como pode esse tempo passar… a gente dormiu acordado e o tempo depressa passou…
Entretanto, são as lembranças, como na velha canção de Carlinhos Vergueiro, que nos alentam a prosseguir:
…Como um ladrão roubei rostos, restos, risos. Como um ladrão corri riscos, mares, medos e fui deixando rastros, marcas, mortes e carregando pedras presas, pesos e me entregando sempre, pelo prazer de ter as sensações totais…
Até a próxima.

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