Vendo além da fórmula

A tecnologia avança de forma extremamente rápida beirando a velocidade da luz, cuja assimilação imediata já não nos é possível acompanhar, pelo menos não para a maioria na qual me incluo. No máximo podemos andar próximos, mas não lado a lado com os acontecimentos em seus belíssimos e preocupantes avanços. Verdade é que desconhecemos seu limite, sua aplicação plena, bem como seus incríveis benefícios e também efeitos colaterais. Dura realidade. Mas duro mesmo é percebemos que nossa evolução moral não acompanha a evolução tecnológica. Estamos muito longe disso, retrato claro é nosso próprio planeta em que os países mais desenvolvidos tecnologicamente não são os países referenciais em moral e ética. “Há muito mais evolução moral entre aborígenes que entre doutores de Harvard, Cambridge, Oxford, Sorbonne ou Mackenzie”.
Para fazermos apenas um pequeno exercício reflexivo peguemos o celular, que hoje é muito mais tudo e muito menos telefone. Andamos pelas ruas, parques e praças cabisbaixos, focados no celular. Sentados em praças de alimentação de shopping, restaurantes, bancos de jardins, dentro de carros, em salas de espera, elevador ou escadarias, nosso comportamento é o mesmo. Igualamo-nos na mediocridade. Nosso sentimento é chipado, nossa emoção é cibernética. Há muito não conversamos, apenas trocamos mensagens e entupimos os aparelhos – nossos e dos outros – de futilidades, acreditando estarmos disseminando sabedoria. Feroz ignorância. Crendo estarmos próximos, muito nos distanciamos. A tecnologia é sim fantástica e não devemos ser idiotas a ponto de achar que podemos brigar com ela, ignorá-la ou a descartar sumariamente. Não, isso não, porém devemos nos permitir refletir e ponderar para encontrar o equilíbrio em sua utilização.
A tecnologia ai está, irremediavelmente fazendo parte de tudo, irredutivelmente plantada na vida de Gaia. A antecipação do futuro pelo exercício da ficção nos leva a imaginar e crer na possibilidade de que em breve chegará o momento que o ser humano será sugado pelo aparelho celular; fisicamente chupado onde a tela o engolirá e então passará a ser ele o aparelho, só enxergando e agindo através de sua tela, ou seja, lá como chamaremos essa incorporação. Então seremos o celular e atuaremos de dentro para fora. No presente -(nosso presente, porque confesso, ignoro saber se estamos no passado ou se navegamos pelo futuro)- já somos parte do aparelho ou ele parte de nós – sei lá, isso já se mistura. Das duas, uma: seremos o corpo do celular ou o celular será nosso corpo. Somos energia pura e chegará o dia em que, sim, seremos exclusivamente virtuais. Medo e verdade serão palavras desconhecidas com significado ignorado. Só existirá, talvez, a fria lógica. Ao mesmo tempo em que a tecnologia nos leva a esse exercício de ficção viajando por um futuro nem tão distante assim, voltemos ao agora, para friamente reconhecer sermos uma raça hostil e primitiva, onde crianças morrem de fome, florestas são destruídas, pedreiras arrasadas, animais esquartejados vivos, idosos jogados em vala comum, oceanos entupidos de lixo, educação e saúde roubados por vampiros com roupagem de políticos e falsos bandidos fantasiados de empresários do mal; onde fortunas e impérios são construídos pela exploração de fármacos e indústria bélica – extremos de um mesmo objetivo: a ganância! Somos sim um povo hostil, cruel e primitivo. Não sabemos amar, sabemos possuir; não sabemos crer, sabemos impor; não sabemos ser, sabemos ter; não sabemos dar, sabemos receber. Não sabemos servir, queremos ser servidos. Desconhecemos que “servir e ser servido são pregas do mesmo tecido”.
Falta-nos o amor e principalmente o sentimento e a prática da verdadeira Fraternidade. Mas o que é ser fraterno? Já pensou nisso? Não cabe aqui expressar o meu conceito de Fraternidade, ficando minha colaboração em provocar que você busque a sua, para com isso ser livre de forma igual. Isso aqui posto não é meu, não sai de mim. São retalhos, fragmentos, vibrações de um planeta doente que capto, ousando achar que posso ajudar a encontrar sua cura. O que é meu é a reflexão, a constatação do que vejo, ouço, pesquiso, procuro e sinto. Isso que simplesmente está por aí ao alcance de cada um. Basta ter olhos para ver, ouvidos para sentir e coração para filtrar. E o principal: querer fazer isso. A verdadeira evolução tecnológica será plena e sabiamente aproveitável a partir do momento que a humanidade exercer a pura e sincera Fraternidade, quando então acredito poderemos não só ver, mas viver além da forma.

 

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