Volta às aulas.

 

Terminaram as férias de julho. Gosto de férias. Gosto da volta às aulas. Primeiro dia, agosto, todo mundo com novidades e querendo falar ao mesmo tempo. Um burburinho só.  Volta às aulas. Terminaram as férias de julho. Gosto de férias. Gosto da volta às aulas. Primeiro dia, agosto, todo mundo com novidades e querendo falar ao mesmo tempo. Um burburinho só. –Bom dia, diz alegremente o professor sala adentro. Como todos estão felizes e, me parece, cheios de histórias, vamos fazer uma redação. Lápis e papel na mão escrevam o título ai: “Como foram minhas férias”. Férias? Como foram minhas férias? Lá vem ele de novo com sua gritante criatividade. Todo ano a mesma coisa! Como foram as minhas férias? Férias? Que férias? Levantar todo dia (e todo dia mesmo, de segunda a segunda) de madrugada, frio, acender o fogão à lenha, preparar o café para esquentar o peito, abrir os olhos e ligar a mente.  Sair porta afora, atravessar o potreiro pisando na relva quebrando o gelo. Casaco, boné, pala nas costas, manta no pescoço, nariz vermelho e gelado. Mãos e dedos duros. A cerca da mangueira branquinha de geada. Vapor saindo das ventas, minha e dos animais. Caminhar até o galpão, recolher a bosta das vacas, revolver a serragem, lavar o úbere, tirar o leite. Férias? Que férias? Gosto das vacas, gosto do leite ainda quente, gosto da lida, mas férias? Que férias? Tratar os porcos, soltar os cabritos, brigar com o galo ao recolher os ovos, correr do ataque do ganso, tropeçar nos patos. Debulhar o milho, socar no pilão, trocar a água, encher os cochos. Férias? Que férias? Ah, os cavalos. Lavar, escovar, lustrar, pentear; conversar com eles, trocar idéias. Isso é bom, isso me faz bem! O sol já alto, a lida é intensa, o tempo voa. -Menino! Menino! Vem almoçar, chama Dona Zéfa minha avó. Gorda, pele lisa, bondosa e bonita. Na mesa, quirera com carne de porco, mandioca cozida e frita, beterraba, cenoura e tomate verde frito. Doce de abóbora na cal é a sobremesa. Delícia! Alimentado, revigorado, meio bodeado pela gula, corro pra varanda, cobertor na mão deito na rede, curtindo o friozinho trazido pelo vento sul e todo encolhido tiro uma pestana. Muito rápido acordo; parece que foi um minutinho só, mas qual foi pra mais de meia hora! Desço pro riacho, recolho pedras e encho uma carriola, levando potreiro acima para construir um mourão e separar o pasto das criaturas; gado pra lá, cabritos e cavalos pro lado de cá. Agora, engraxar o eixo e rodas do carro de boi, que mais tarde vai gritando pela estrada levar o milho pra fazer farinha no moinho do Antunes, lá na Vila dos Maia. Mata adentro, toco o facão no palmito, tiro o miolo pra mãe fazer conserva, empadão e até uma sopa. Vejo os cavalos no pasto, aproveito ninguém “arreparando”, monto o Canário em pelo, vou até o sitio vizinho, passando rente a cerca vejo pela janela a Marcinha lavando e secando a louça. Dou um assovio; ela sai apressada pra fora, enxugando as mãos no avental, dizendo ir tratar as galinhas. Chega perto, roubo-lhe um beijo e saio a galope pela estrada, faceiro, não sem antes gritar: depois eu volto! Ah, se volto! Cheiro de bolo de fubá, quentinho! Tá na hora. –Vem piá, grita minha avó, vem tomá café! Manteiga fresca, nata grossa do leite fervido na manhã, uma “féta” enorme de pão de forno, queijo de cabra. Mel ainda no favo. Como com gosto. Férias? Que férias!!!

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