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Josoel Kovalski

Literatura

Atualizado em 11/03/2010

O poeta Cruz e Souza

No Brasil se valorizam muito os artistas que, de alguma forma, nos familiarizam com os hábitos mentais europeus. Prova disso é a poesia de Alvarez de Azevedo – talvez o maior assimilador das estéticas de além-mar, Gonçalves Dias e Castro Alves que apresentavam à sensibilidade popular uma poética da expressividade do indivíduo. Para eles valores como liberdade, rebeldia, independência se tornaram motes fundamentais e, para a época e estudos posteriores, emblemas inquestionáveis. Fugiram dos lugares-comuns da poesia bucólica neoclássica e permearam-se nas sendas dos escritores românticos ingleses Coleridge e Wordsworth. Esses dois poetas europeus programaram exaltar as emoções desencadeadas pelo contato do homem com a paisagem particularizada, promovendo a sensibilidade a partir dessa comunhão e entendendo o artista como um criador de verdades, vindas da capacidade em perscrutar as próprias emoções e desejos. Temos então uma tendência à modificação do conteúdo em poesia: em vez de se exaltar as virtudes cívicas – tão em voga às poéticas clássicas – exaltam as virtudes do amor e dos amantes.
Numa época em que no Brasil as tendências da poesia divergiam significativamente (se deveria expressar a beleza da forma rígida (descambando em uma arte objetiva e impessoal, voltando aos moldes clássicos) ou, por outro lado, se esta deveria ser a expressão máxima da sentimentalidade e do “eu” do poeta) encontramos o nome de João da Cruz e Souza (1861-1898) como voz brasileira da sensibilidade decadentista francesa. Nascido na hoje atual Florianópolis (naquela época Nossa Senhora do Desterro), Cruz e Souza era filho de negros alforriados e recebeu a tutela e o nome de seu ex-senhor, o qual lhe proporcionou uma educação refinada em alemão, francês, latim e grego. Sempre combateu o preconceito racial, foi impedido de ser promotor em Laguna por ser negro, proibição que não o impediu de promover uma poesia pós-romântica que lhe assegurou um papel a ser lembrado na literatura brasileira e, para os modernistas, um ideal que deveria ser seguido: a poesia rebelde e de auto-investigação. Os românticos identificavam a dor como decorrência da solidão, do tédio ou da frustração amorosa. Cruz e Souza atribuiu à dor uma densidade existencial, novidade, portanto, no discurso lírico brasileiro. Queria investigar o motivo do sofrimento. Sua poesia é uma constante busca por esse motivo, em seu caso os fatos autobiográficos (o negro, o preconceito) associados com o lugar retórico (o artista como um decaído). Assim, partindo da condição pessoal, o nosso “Cisne negro” tratou do tema do maldito com naturalidade, vendo na dor uma espécie de instrumento para a contemplação das essências, projetadas em seus versos nas estrelas e nos caminhos misteriosos da luz e da noite. Por isso é estudado como simbolista, por remeter aos sinais que sugerem a passividade do ser ante a complexidade da existência que o transforma em ente sensível de dor e sofrimento, voltando-se ao nefasto, ao caminho da fusão lírica de sensações, de sinais e de sentimentos.
Seguindo os passos do poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867), Cruz e Souza conceituava o artista como um excêntrico, um desajustado e decaído. Entre nós sua poesia é a voz da redenção ante o dilaceramento, cultuando ao mesmo tempo a perversão e a consciência. Frontalmente oposto ao ideal do artista clássico, que buscava a integração, o nosso “Dante negro”, em consonância com seus pares europeus, lutava pela dissolução. Cruz e Souza foi o que poderíamos chamar de “poeta maldito” brasileiro, assim como o foram Mallarmé e Rimbaud na França, assim como Poe nos Estados Unidos. Todos eles (os malditos) tinham o artista como um ente que se desviava nas sendas da inconsciência (ou estados alternativos de consciência) e loucura. Ademais, Cruz e Souza era um negro no período da escravidão. A partir disso o poeta versou sobre o tema do desterrado, do perseguido, do maldito. Retórica e existência fundiram-se nessa união, tornando-se sua poética um caso singular na poesia brasileira. Cruz e Souza aborda o artista como condenado ao exílio social, ao desterro e ao sofrimento individual e consegue aquilo que só as verdadeiras obras de arte alcançam: propiciar num misto de revelação e êxtase o transporte do texto para a vida.
Faleceu em 1898 de tuberculose. Seu corpo foi transportado para o Rio de Janeiro em um vagão destinado ao transporte de cavalos. Ao chegar, foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier. Em 2007 seus restos mortais foram transportados para o Museu Histórico de Santa Catarina - Palácio Cruz e Sousa no centro de Florianópolis.

 

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