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Orientação
Pastoral
Dom João Bosco
Bispo de União da Vitória |
Atualizado em 12/03/2009
O DIREITO DE MATAR
Com
muita repercussão na imprensa, aconteceu no último dia 4
de março o desfecho de um caso triste, envolvendo uma
menina de Alagoinha, no Pernambuco, de 9 anos apenas,
grávida de gêmeos, resultado de estupro, levada a
abortar, após quase quatro meses de gestação.
De
um lado a Igreja, com sua posição de rígida em favor da
vida, especialmente a vida indefesa, que condena o
aborto, como infração da lei divina: “Não matarás!” (Dt
5,17). É o quinto mandamento do decálogo.
De
outro lado a opinião pública, que considera as
circunstâncias, a violência sofrida pela menina, sem
culpa, e defende o aborto, aliás permitido pela lei
brasileira pra esse caso, tanto por ser resultado de
estupro, quanto pelo risco de vida da mãe. Os
noticiários abriram as baterias contra o Arcebispo que
anunciou que a Igreja prevê, nesse caso, a pena de
excomunhão aos envolvidos. Chamaram-no de cruel,
anacrônico, lembrando que a Igreja condenou Galileu,
acobertou a pedofilia dos padres, e “por isso as igrejas
se esvaziam”, e por aí afora. Até o Presidente da
República se achou no direito de dar sua opinião dizendo
que “a medicina está mais certa que a Igreja”.
Para nós católicos, além dessa sensação ruim de ver
criticada a Igreja, fica de fato muita dúvida. A Igreja
está mesmo sendo insensível e implacável em fixar-se na
lei, sem perceber as nuances desse caso?
Quero convidar os cristãos católicos a refletir, ainda
que brevemente, sobre alguns pontos que o noticiário, em
geral não mostra. A nota oficial da CNBB, sobre o caso,
cita dois pontos: primeiro, a Igreja se faz solidária
com todas as vítimas desta e de inúmeras outras
violências que se cometem, infelizmente, em nosso país.
Em segundo lugar, lamenta que o caso, tão complexo, não
tenha sido tratado com a serenidade e reflexão exigida
pela pelo caso. E se coloca decididamente contra o
desfecho dado a esse caso.
De
fato, há notícias de suposta manipulação do caso da
menina, envolvendo o Hospital, a Secretaria de Saúde e
ainda uma ONG pró-aborto. Queriam afastar os membros do
Conselho Tutelar e também da igreja. Em meio à
discussão, teriam transferido a criança para outro
hospital, com o fim de realizar logo o aborto dos
gêmeos.
A
excomunhão da mãe e dos agentes da saúde, foi também
muito criticada, ainda mais que coincidiu com as
manifestações dos grupos feministas no Dia da Mulher.
Deu impressão que a Igreja acrescentou um sofrimento a
mais a quem já estava sofrendo com a tragédia. Ou que o
Arcebispo foi injusto com os médicos que agiram, enfim,
dentro da lei. Só de ouvir a expressão “excomunhão”
muitos já entendem como uma coisa da Idade Média, dos
tempos da Inquisição. Parecia que o Arcebispo não dava
importância para o outro crime, o estupro.
Vamos procurar entender o que significa excomunhão:
significa estar fora da “comunhão”, ou seja, do
pensamento e da doutrina da Igreja. No caso do aborto, a
Igreja prevê a pena de excomunhão “latae sententiae” (CDC
1398) ou seja: aplicação da pena a todos os que o
praticam ou colaboram, independente das circunstâncias,
sem necessidade de uma declaração formal. As pessoas
envolvidas na excomunhão podem assim arrepender-se e
pedir perdão.
Não
significa que o outro crime, seja menos grave. Deve ser
punido até mais rigorosamente, com julgamento e prisão.
A excomunhão tem a finalidade de chamar a atenção para a
gravidade do ato de matar, independentemente das
circunstâncias. Por isso, não houve novidade na
declaração do arcebispo, para quem conhece as razões,
embora a maneira dele ter se expressado possa ter
acirrado mais polêmica. Isso ofereceu aos noticiários,
às feministas, aos políticos, aos defensores do aborto,
a chance de aparecer diante das câmeras como defensores
de uma criancinha inocente quando o problema é outro e
bem maior: o que faz com que os estupros sejam mais
freqüentes, o que leva a um número cada vez maior de
casos de gravidez indesejada, o aumento de padrastos e
madrastas que fazem crimes, será que matar os
indesejáveis é o remédio?
Agora que está consumado, vamos, ao menos, tentar
entender: por que a Igreja se mantém intransigente
contra ao aborto, mesmo nessas circunstâncias. É porque
a vida é sagrada, é inviolável. O preceito divino não
pode ser mudado. Para a moral da Igreja, a vida humana
deve ser defendida desde a concepção até o seu fim
natural. Quem pode interromper é Deus somente. Se
aceitamos matar neste ou naquele caso, abrimos as portas
para aceitar que se matem todos os filhos indesejados, e
também, porque não, os deficientes, quem sabe até os
filhos dos pobres, porque nos incomodam. E não são
poucos os projetos de leis que tramitam no Congresso
pedindo coisas assim. Quem os defende, diz que o Estado
é “laico”, isto é, não precisa ouvir a maioria da nação
que é religiosa, nem entidades como a Igreja, que são
chamadas de “conservadoras”.
Então, matamos as crianças e assim se resolve o problema
de milhares de estupros e mães adolescentes? Claro que
não. A solução passa pela proteção da família, que essa
mesma parcela da mídia que critica a Igreja, se esforça
por destruir. A solução passa pela Educação, grande
dever do poder público, que entende ser uma boa solução
distribuir camisinhas e, conseqüentemente, o convite
para o sexo irresponsável. Quando se perdem as
referências, os grandes princípios da vida, da ética, da
família, da verdade, da fé, a convivência humana se
torna um vale-tudo, sem remédio.
Desse e de outros episódios que chocam a opinião
pública, ficam algumas impressões: a Igreja ainda não
consegue lidar com a rapidez com que os meios de
comunicação comovem a opinião pública, oferecendo de
imediato uma visão clara de seus princípios, em
linguagem precisa, adequada e compreensível para a
grande audiência. Há muito desconhecimento, mesmo entre
os católicos, sobre as razões de a Igreja não aceitar a
eutanásia (lembre-se o episódio da moça italiana que
ficou anos em coma), sobre a vida embrionária (o caso
das células-tronco), sobre as leis que enfraquecem a
estrutura familiar entre outras. É comum ver católicos
que “acham certo” haver pena de morte, legislação
favorável ao aborto, legalização do uso de
entorpecentes, união de homossexuais equiparada à
família, etc. “Acham”... sem conhecer o mínimo do que a
sua Igreja, com sua experiência multissecular orienta.
E dizem até: “pra que serve a experiência
multissecular, se a vida é hoje...”
Por
outro lado, os meios de comunicação que são muito
antenados nesse “hoje”, sabem como explorar o
sentimento, lucrar com o sensacionalismo, repetir
notícias de crianças jogadas pela janela, arrancar
lágrimas da fiel audiência do BBB. A mídia prefere jogar
o foco da discussão numa briga entre fé e ciência, em
vez de discutir princípios éticos que norteiam todo o
nosso agir. Poucos foram os noticiários que levaram em
conta a nota oficial da CNBB, que discordou do desfecho
dado ao caso, e sobre a nota do Vaticano que apoiou o
Arcebispo. Desiguais no poder de convencimento, penso
que devemos insistir e investir na formação mais
profunda dos nossos cristãos participantes, á luz dos
preceitos do Evangelho do Deus da Vida. |
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