Quando se é criança ou temos muito
medo de quase tudo, ou não temos medo de quase nada, ou
há ainda os que têm lá seus medos, mas por orgulho não
os externam.
Em meu tempo de garoto, boa parte de meus amigos não era
lá muito corajosa exceção feita a Tyrone José Braz
Duarte, de quem já falei em uma de minhas crônicas.
Na categoria intermediária, com alguns medos enrustidos,
mas não demonstrados, estávamos eu e aquele que hoje é o
mais antigo amigo, Nivaldo Feliman Camargo.
Conhecemos-nos em 1968, primeiro como adversários, mas
já no ano seguinte, ficamos muito amigos. Em nossa
vizinhança havia muitos meninos e poucas meninas, o que
fazia com que tivéssemos uma turma muito grande que
batizamos de Patota da Barão, uma vez que muitos de nós
morava na Rua Barão do Cerro Azul, onde nos reuníamos.
Como disse, anteriormente, eu e Nivaldo tínhamos lá os
nossos temores, mas como um não queria ser menos
corajoso do que o outro, quase nunca demonstrávamos os
nossos medos.
Como só tive filhas mulheres, confesso não saber como é
hoje, essa coisa de ter ou não medo, ou de demonstrar ou
não, entre os meninos. Em minha infância e,
principalmente, na pré adolescência, essa coisa era
bastante emblemática, tanto que volta e meia, fazíamos
alguns testes para demonstrar coragem ou entre a
maioria, a falta dela.
É preciso dizer que aqui não estou fazendo um panegírico
de minha coragem. É verdade que nunca fui medroso, mas a
força de minha coragem advinha, basicamente, de meu
orgulho e de meu medo de demonstrá-lo. Aí já há uma
forma de medo.
Um de nossos testes de coragem consistia em entrar no
Cemitério Municipal à noite.
Ficávamos todos, uns 15 garotos, na esquina das ruas
Costa Carvalho, com Ipiranga. Primeiro entramos por
volta de 9 da noite. Apenas Nivaldo e eu entramos. E
tinha que entrar sozinho ir até a cruz, acender uma vela
e fazer um sinal para os garotos que estavam uma quadra
acima.
Mesmo os que não entraram nos desafiaram, queremos ver
vocês entrarem à meia-noite. Lá fomos nós, um de cada
vez. Nivaldo foi primeiro, fez o sinal e aí foi minha
vez. Também fui e fiz o sinal, previamente, acordado.
Aí numa bravata típica da adolescência nos fizemos um
desafio que parecia mais assustador, entrar até o final
do Cemitério. Por que ele parecia mais assustador?
Porque depois da cruz não havia mais luz, e não seria
permitida nenhuma iluminação artificial, como lanterna
ou vela.
Para saber se iríamos até o final, alguém teria que
entrar primeiro e esperar o outro ou os outros.
Como ninguém além de Nivaldo e eu havia se habilitado
sequer a entrar ali na frente do Cemitério e num horário
muito mais cedo, não seria desta vez. E não foi.
Decidimos sortear que entraria primeiro. Fui o sorteado
e esperei meu amigo lá nos fundos, onde ainda não havia
muro e sim uma cerca. Nivaldo não titubeou e também
entrou.
Passávamos assim por um batismo de coragem, mas o pior
ainda estava por vir e que era enfrentar dois temíveis
irmãos que moravam na Rua Castro Alves e atormentavam
quase que diariamente, nossa turma. Um deles era um
pouco mais velho do que nós e reza a lenda, teria matado
a mulher, depois de adulto. O outro era de nossa idade.
Eles quase sempre irrompiam do nada e nos punham pra
correr. Nessa hora não dava pra esconder o medo, o
negócio era correr.
Até que uma tarde, quando Nivaldo me esperava com mais
alguns amigos em frente à minha casa, eles apareceram.
Todos os garotos correram e Nivaldo resolveu ficar,
cansado que estava de fugir, decidiu enfrentá-los.
Estava tomando sopapos e pontapés de todo jeito, até que
sai de casa e me deparei com a cena. Nem pensei em
correr, pensei apenas que iria apanhar junto. Perdi,
completamente, a noção do razoável e com uma ripa que
havia arrancado da cerca da casa vizinha à minha, fui
pra cima dos valentões. Despedacei a ripa nas costas do
primeiro e continuamos sem ripa. Saímos bem machucados,
mas para nosso regozijo, eles saíram piores e o que é
melhor, correram e nunca mais nos importunaram. Foi
preciso Nivaldo encarar os machões para percebermos que
as feras não eram tão feias como pareciam ser. Eles
foram embora da vizinhança, quando mais ou menos na
mesma época fizemos um campo de futebol, ali mesmo na
Barão do Cerro Azul e como comentei em outra crônica,
nosso time se chamou Cerro.
Logo nos primeiros dias de nosso glorioso campinho,
começamos a ter a indesejada visita noturna de uns
sujeitos que vinham para quebrar as traves.
Fazíamos uma espera e eles não apareciam e assim foi,
sucessivamente, até que decidimos fazer traves com pés e
que retirávamos todas as noites. Certa noite nós nos
esquecemos de guardar as traves e como de costume, nos
reuníamos na churrasqueira da casa dos irmãos Paulo e
Zinho Murara, que hoje moram em Canoinhas, para jogar
canastra, quando fomos avisados por Gilmar Preizner, o
Gima, que faleceu ainda garoto, vítima de leucemia, que
as traves haviam sido roubadas. Gima disse que eles
haviam carregado as traves descendo a Barão e dobrando
na João Gualberto e que ainda daria tempo de nós os
alcançarmos se agíssemos rápido.
Saímos no encalço da dupla e já ao virarmos a esquina,
eles nos esperavam de ripas em punho.
Os primeiros que chegaram levaram uma saraivada de
ripadas e acabaram deixando eu e Nivaldo no mano a mano.
Como Nivaldo não correu e estava em desvantagem porque
não possuía uma ripa, voltei umas duas casas e arranquei
um pau da cerca e parti pra batalha. Acabei quebrando
minha ripa, mas também quebrei a deles. Aí partimos pra
bordoada de mãos limpas. Em briga de rua, eles eram
melhores do que nós e estavam levando a melhor, ou seja,
estávamos apanhando, até que Hamilton Trentin, que
morava bem em frente onde brigávamos, saiu de sua casa e
disse que iria chamar a polícia. Foi quando eles
correram. Levamos as traves de volta e constatamos que
eles não eram assim tão bons de briga e que nós em maior
número, poderíamos enfrentá-los.
Mais uma vez foi preciso a coragem de meu bravo irmão,
Nivaldo Camargo, para que tivéssemos atitude.
Brigamos com a dupla, por cerca de alguns meses. Noite
sim, outra também. Algumas vezes só eu e Nivaldo, em
outras nós dois e Paulo Murara e outras ainda, eu,
Nivaldo, Paulo, Zinho e Bughay, também de saudosa
memória.
'Uma crônica é muito pouco para falar de um amigo, de
uma amizade que já dura mais de 40 anos.
Dessa maneira, peço licença àqueles que me lêem, para
continuar na próxima semana, deixando aqui meu abraço
para Nivaldo Feliman Camargo, que ontem, dois de
setembro, fez aniversário e foi quem, ao saber reagir,
nos fez esquecer o medo de defender aquilo que para nós,
na época, era o mais precioso dos bens, nosso
território.
Vida longa amigo.